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Série "Dos olhos que O viram" - A Voz da Luz

Breu. Nem vultos sentia, nem a presença da luz no meu rosto, apenas a pura escuridão. Pelas ruas de Jerusalém, sozinho a muitos anos, eu sobrevivia. Talvez você imagine minha falta de visão uma maldição que eu carregava, porém o mais doloroso era o abandono que eu sentia. Mendigar não era opção, eu definitivamente não servia para trabalhar nesse mundo dos homens.
Com o passar dos anos, das poucas moedas, tristezas e falta no coração, buscava explicação para minha vida. Se um dia meus pais de alguma forma erraram e eu nascera cego por isso, ou se eu não seria digno de ver a luz, a cor, a forma do mundo que me rodeava. Desde jovem notei que ouvia melhor do que muitos e certa vez, ouvi uma gritaria que me deixou curioso. Homens irritados que não paravam de falar com suas vozes quase roucas:
- Está mentido! Você fala por você!
Tentei prestar mais atenção e notei uma voz mais firme entre eles que dizia:
- Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida.
Luz. Independente do que aquele homem dizia, luz era algo que eu não entendia. Sabia que era quente, soube quando criança, quando queimei a mão em uma fogueira e perguntaram-me gritando se eu não olhava para onde andava. Aqueles homens não sabiam que eu era um garoto cego na época. Também sempre soube que a luz era quente pelo Sol, que quando nascia seu calor era um abraço quente para uma noite fria.
Voltando a mim ,fiquei ali pensando sobre as trevas que o homem com voz firme se referia, pois eu andava em trevas minha vida toda, esse seria o estado em que eu mais poderia me identificar no discurso dele. Eu não sabia o que era luz e saber o que é a luz, percebendo-a com meus próprios olhos, mais do que a todos seria uma nova vida para mim. Sempre fui muito direto. Há pessoas que só acreditam vendo, eu mais do que elas, acreditaria em tudo que eu visse, entretanto aprendi com o tempo que mesmo vendo, ouvir era uma percepção que eu havia treinado por toda a vida e não poderia substituí-la.
Alguns dias depois, quando eu estava quase cochilando, sem nenhuma força naquele dia de levantar minha voz para pedir alguma esmola, alguém se abaixou perto de mim e eu ouvi vozes próximas a ele:
- Mestre, este homem pecou ou foram os pais para que ele nascesse cego?
Me senti objeto de estudo deles. Eu quis me levantar na hora com a raiva que me moveu, mas estava fraco naquele dia. O homem, estranhamente calmo de toque colocou sua mão em meu ombro e disse:
- Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus. Convém que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar.
Sim, eu vivia um eterna noite por toda vida, nunca pude trabalhar justamente por causa dessas trevas em que vivia. Eu quase levantei de uma só vez quando fui impedido, desta vez não por uma mão em meu ombro mas por uma frase.
- Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo.
Era o homem que da outra vez falava de luz. Como seria ele uma luz? Seria ele alguém que brilhava. Nunca tinha ouvido história de alguém que brilhava fora o profeta Moisés. Eu ouvia muitas histórias nas ruas, mas de homens em Jerusalém que brilhavam nunca. Seria ele o profeta Jesus, pensei, que muitos falavam?
Percebi que o homem cuspiu no chão, e de repente colocou uma espécie de barro nos meus olhos.
Notei logo o que havia feito, sujou meu rosto e pediu para que eu lavasse meu rosto. Fui. Não entendia se aquele jovem mestre sujava as pessoas na rua para ensinar algo aos discípulos sobre como um homem cego deve se purificar, mas me fez refletir. Nunca alguém havia me mandado lavar o rosto por meus olhos estarem sujos. Ninguém gostava de olhar para o rosto de um homem cego e só notariam que meu rosto estaria sujo se fosse uma sujeira grossa e pesada, nunca um mancha. Não passou pela minha mente que ele estivesse curando meus olhos da cegueira mas depois de anos deste acontecimento entendi algo que vou lhe contar no final desta história.
Lavei o rosto. Talvez tenha sido um dos momentos mais emocionantes de minha vida, meus olhos ardiam, um borrão estava na minha frente. Foi como se minha mente se abrisse, como se abrissem uma janela, de frente à uma incrível paisagem de pedras e rios. Sim, pedras, pois foram as primeiras coisas que vi, pedras e água. Eu via as cores opacas das pedras, depois me acostumei com o luz e a dor foi passando lentamente quanto mais eu lavava meus olhos. Me vi refletido na água. Então aquilo era eu. Deixei a água parar um pouco para me ver melhor. Meus olhos na verdade tinham um ponto sem escuro no meio, não imagina que havia escuridão também em meus olhos. Vi a água escorrendo pelas minhas mãos, algo que só sentia. Tentei me levantar e o mundo parecia que ia junto. Nunca tinha enxergado, logo não sabia como era movimentar e enxergar, para mim num primeiro momento a impressão que tive era que o mundo se movia. Aos poucos o tato e a visão se conectavam numa só impressão. Não se comparava com meus sonhos, e se aquilo fo
sse um sonho então não queria acordar, teria sido o primeiro sonho onde me senti livre de verdade, vendo.
Tentei subir as escadas e tropecei. Aos poucos consegui subir. Era Shabat e não haviam pessoas nas ruas trabalhando. Avistei o profeta e seus discípulos mas me destrai reconhecendo os locais onde estariam bancas de frutas, outra de tecidos, uma de jarros a minha direita. Reconheci os locais que vivia desde menino. Queria ver as formas das coisas mais vivas, animais que pra mim deveriam ser muito bonitos de se ver, os comerciantes e suas vestes, seus objetos. Queria também ver em alguns meses o céu mais ensolarado, pois era quase inverno e já estava quase entardecendo. Voltando a mim notei que algumas pessoas passaram espantadas ao meu redor.
- Não é aquele cego que pedia esmolas ali perto?
- Não, deve ser uma pessoa parecia, só pode.
Outros passaram e me perguntaram de igual modo.
- Sou eu mesmo – respondi como se fosse alguém de fama com um sorriso bobo no rosto - É que aquele homem chamado Jesus veio e pegou barro, passou no meu rosto e me curou - eu comecei naturalmente a declarar àqueles homens.
- Onde está ele?
- Ele está... – olhei para trás e não os vi. Não sabia para onde o homem que me fez enxergar estava. - Eu não sei onde ele está.
Tinha perdido ele de vista, devem ter ido quando me distraí. Nisto aqueles homens me disseram para eu ir com eles, e depois de uns passos juntos a me levar a força quando indaguei onde queriam que eu fosse. Pela primeira vez vi rostos que tramavam o mal, mesmo sem nunca ter enxergado notei isso.
Me levaram para conversar com alguns dos fariseus que me perguntaram a mesma coisa: como eu consegui enxergar sendo cego desde sempre. Discutiam entre eles, que estava errado todo o acontecimento. Eu não poderia ter sido curado durante o Shabbat, diziam eles, e que quem me curou não tinha o direito. Até que um deles, talvez o mais velho perguntou-me:
- E você, o que acha desse homem que te curou?
- Ele, pelo que percebi é profeta.
Notei pela conversa que já conheciam o tal profeta de outra ocasião, Jesus, talvez fossem esses os que conversavam em voz alta a alguns dias atrás perto de onde eu estava. Lembro-me de que quando o profeta chegou perto de mim daquela vez, eu o reconheci pela voz como sendo aquele que dizia ser a luz do mundo.
- Não acreditamos em você! - diziam aqueles judeus da seita dos fariseus.
- Você não era cego de nascença, não pode ter sido e deixado de ser.
- Conheço os pais desse homem – disse um deles.
- Então basta chamar aqui os pais desse homem que não via e agora vê. Chamem.
Nem perguntaram meu nome. Não queriam saber, queriam me usar da melhor forma possível para provar suas teorias sobre os limites de Deus.
Então trouxeram meus pais. Há muito tempo não tinha contato com eles e já não era mais como um filho para eles. Eles não entenderam quando me viram os seguindo com o olhar. Depois de conversarem com os fariseus respondiam como quem não está interessado no assunto:
- Sim, sim, ele é nosso filho e já sabemos que é cego desde que nasceu.
Os fariseus repetiam algumas vezes as perguntas sobre minha cegueira, parecia um interrogatório. Minha mãe olhava pra mim com um olhar rápido e voltava a atenção para os fariseus.
- Não sabemos como ele voltou a ver, ou como vocês dizem que alguém tenha feito isso. É novidade para nós também.
Meu pai, já com idade e com medo de ser expulso com minha mãe das sinagogas por afirmar que eu poderia ter sido curado pelo profeta disse:
- Perguntem a ele, ele já é crescido o bastante para responder por si.
Talvez não importasse se eu enxergava ou não, meus pais nunca tiveram a coragem de encarar minha cegueira como algo que não fosse uma penalização divina. Não teriam coragem de se verem expulsos das sinagogas por minha causa também.
Me chamaram novamente. Eles ainda não acreditavam realmente na cura, mas queriam que eu na verdade desse valor ao que eles diziam, este era o ponto.
- Para a glória de Deus, diga a verdade. Sabemos que esse homem é pecador.
- Se é pecador eu não sei – eu disse – mas sei de uma coisa, eu não via, nunca vi, e agora vejo.
Alguns ficaram com olhares furiosos comigo, fui muito direto para eles. Um outro me perguntou mais calmo mas não menos intimidador:
- Como ele fez? Como ele te fez enxergar?
Senti um pouco de pretensão naquelas palavras, como se quisesse me apanhar mentindo. Então comecei a me irritar e respondi:
- Eu já contei várias vezes, mas parece que são surdos, para que querem ouvir novamente e novamente? Por um acaso querem ser aceitos discípulos do profeta também?
- Vá você seu cego maldito ser discípulo dele, nós somos discípulos de Moisés! - exclamou o que havia me perguntado mas calmo.
- Nós sabemos que Deus falou com Moisés, mas esse homem nem sabemos de onde veio? - falou rindo, mas eu ri, não podia não rir, mas ri de outra coisa.
- Que coisa estranha mesmo, vocês, que sempre sabem de tudo, não sabem de onde ele é, e mesmo assim ele abriu meus olhos e agora vejo. Vejo vocês sem saber o que dizer sobre isso. Eu já ouvi muitas histórias na minha vida, alais ouvir era o que eu mais fazia, mas nunca ouvi uma história de que alguém tenha curado alguém que nascera cego. Se o profeta não fosse realmente de Deus, não faria o que fez em mim. Sabemos que Deus não ouve a pecadores, mas ouve ao homem que o teme e pratica a sua vontade
- Calado! Você nasceu todo em pecado, como tem essa ousadia de vir nos ensinar?
Me expulsaram dali me empurrando, pela primeira vez vi a cor vermelha de meu sangue. Já era tarde e fui dormir no lugar onde sempre dormia. A noite passou e queria eu reencontrar aquele homem para agradecê-lo, e talvez perguntar como ele tinha me dado a vista.
No dia seguinte, logo de manhã fui lavar meu rosto. Ainda não sabia descer escadas direito e fui rumo ao chão no final da escada do tanque. Me lavei e voltei para subir quando descendo veio Jesus. Dei um sorriso rápido, era a primeira pessoa que eu revia em minha vida, porém ele começou a falar antes mesmo de eu agradecê-lo. Ele veio dizendo que tinha sido informado de que me expulsaram da sinagoga na noite passada.
- Você crê no Filho de Deus, o Messias? - o profeta me perguntou.
- Mas Senhor, como agora posso ver, quem que é ele para que vendo eu creia?
Era como se agora eu pudesse sentir as coisas e pessoas mais reais, e eu queria conhecer sem sombra de dúvida o Filho de Deus agora que pudia ver, mas como reconhecê-lo sem que alguém me apresentasse? Aquele profeta talvez pudesse me apresentar, era um profeta poderoso do Senhor. Então vieram as palavras que me desmontaram:
- Você já o viu amigo, é o fala contigo agora.
Então, impulsionadamente me prostrei aos pés dele:
- Creio, Senhor, creio...
Agora tudo fazia sentido, minha vida, minha cegueira, meus problemas durante anos sozinho, meus sentimento quebrados por ter sido sempre considerado um pecado ambulante. Agora tudo estava certo e correto, eu conheci o Filho de Deus e entendi que ele de fato era como a luz na minha vida.
- Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não vêem vejam, e os que vêem sejam cegos. - Disse Jesus, a Luz, Filho de Deus.
- Nós somos cegos também então? - perguntou algum dos fariseus que estava no meio do grupo de pessoas que seguiam a Jesus quando o encontrei.
E Jesus respondeu sabiamente deixando um silêncio depois das palavras que duraram bastante:
- Se vocês fossem cegos, não seriam culpados de pecado; mas agora que dizem que podem ver, a culpa de vocês permanece.
Na verdade eu confiei em Jesus não porque o vi, e sim porque o ouvi. Fiquei conhecido por muitos anos como “o cego de nascença que havia sido curado”, um título que me lembrava continuamente que a Luz do Mundo me ensinou a ver a luz física e isso era o evento da minha vida. Mas a maior lição que aprendi foi: Ele me apresentou primeiro Sua voz, quando eu não enxergava Sua luz, para que quando eu o visse fisicamente e ouvisse seu chamado de pastor, eu como ovelha que já o reconhecia pela voz, prontamente ficasse junto a Ele pra sempre.
Baseado nos relatos do Apóstolo João em João 9, usando de João 10 para completar a linha de raciocínio sobre ouvir e ver.
Sou o 2º
Evangelho segundo Twitter
Corpo com pernas curtas não se move bem

Já foi pego em alguma pegadinha sem graça hoje, 1º de abril? O motivo dessa data foi a mudança do calendário para o calendário gregoriano, fazendo o ano começar em janeiro. Dai as pessoas começaram na França a fazer convites para festas falsas de 1º de abril (antigo ano novo).
- controversista: "Uma mentira não pode sobreviver" - Martin Luther King Jr.#xômentira
- maia_fabiola: RT @voltemos: Use o dia #1Abril para lembrar-se que: (3) aVerdade se manifestou entre nós e pagou o preço de nossa mentira na cruz
- andre_marcoge: RT @natashacdias: E se ao invés de dia da mentira, fosse dia da verdade? O que você me diria?
- Judson_Lima_: QISSO.. dia da mentira, e nem existe o dia da verdade!!! ;/
Série "Dos olhos que O viram" - Desenhos no chão
Olá galera! Vou compartilhar alguns dramatizações que escrevi sobre alguns acontecimentos bíblicos. Alguns tentei não citar tanto nomes de lugares nem criar nomes de pessoas para não distorcer o sentido dos textos que são apenas para ilustrar um ponto de vista, chamar sua atenção para os sentimentos daqueles que viram a Jesus Cristo fisicamente a dois milênios. A série de textos se chama "Dos olhos que O viram". Seriam os pontos de vistas daqueles que viram a Jesus. Mesmo sem eu apelar muito à liberdade poética, ressalto que se em algum ponto você não concorde com algo basta levar para a liberdade poética do texto. O sentido é você sentir um pouco desses olhos que viram à ELE em carne e osso.

Desenhos no chão
Foi uma noite maravilhosa para mim na época, o proibido realizado às escondidas. Entretanto minha ultima manhã raiava sem quem eu me preocupasse com ela, sem que a notasse. Tal manhã que prometia ser mais um turbilhão de outras novas sensações se tornou o prelúdio de meu fim. Com violência meus sentimentos se cruzavam entre o desespero e a culpa. Me debati como uma presa no matadouro, puxaram-me os cabelos e minhas roupas. Não tive tempo de vestir nada, minha leve roupa era envolvida por panos quaisquer da cama, como minha alma que se envolveu com qualquer trapo que desejei vestir.
Meus joelhos se rasgavam a cada vez que os encostava no chão, tentando livrar meus finos braços dos fortes deles. Eu sabia porque estava ali, fui pega em adultério e eram meus últimos momentos viva. Onde estava meu amante eu não sei, fui levada sozinha para o que me condenei com ele. Não saber como eu iria morrer era uma dúvida que sempre me perseguia e parecia que iria me perseguir até o momento da minha morte. Agora não como iria morrer, mas onde eu iria morar era minha dúvida. Estavam me levando para o templo, iriam me julgar lá? Matariam-me lá?
Um profeta ensinava no templo, agachado no chão e desenhando na terra, quando fui jogada contra uma parede. Rodearam o profeta e os que dele ouviam, assim como a mim. Pareciam montar um pequeno tribunal onde eu era a ré e o profeta o juiz.
Rapidamente um deles disse, como se introduzisse o julgamento:
- Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando.
Não levantei minha cabeça enquanto estava no chão, encolhida, esperando tremula meu fim. Mil pensamentos de culpa e desespero rondavam minha mente para me atormentar, enquanto eu pensava que tudo aquilo era um pesadelo, que a qualquer momento eu acordaria e me veria longe daquilo tudo.
Como se estivesse em outro lugar distante, o profeta não levantou um olhar para tudo aquilo e continuou a escrever na areia para os que ainda prestavam atenção no que ele ensinava.
- E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. E você, o que diz?
Insistiam, como crianças impacientes buscavam a atenção do profeta. Reparei pelas poucas palavras que consegui compreender, pois estava muito abalada com tudo aquilo, que se tratava do nazareno que fazia milagres e falava boa palavra. Diziam ser o Filho de Deus. Escolheram justamente quem consideravam o filho do supremo Juiz para me julgar, pensei em minha mente confusa. Quanto mais meus olhos ardiam por tantas lágrimas derramadas, mais perturbavam o profeta nazareno.
De repente, o profeta parou de escrever, se apoiou para se equilibrar e levantou-se lentamente apesar de não ser velho, tinha uns trinta anos. Com os dedos sujos ainda calou todos ali só pelo fato de se levantar. Senti o quão respeitado seria aquele homem, iria dizer minha sentença? Ele seria o homem que daria a ordem para me matarem? Ele seria meu juiz naquele momento. Temi a voz daquele homem em suas primeiras silabas. E comecei a me jorrar em desespero quando ouvi o seguir da frase.
- Aquele que no meio de vocês esteja sem pecado seja o primeiro a atirar a pedra contra ela.
Não tive condição de perceber todo o sentido da frase, para mim naquele instante, eu estava sentenciada. A ordem foi dada. Esperava acuada a primeira pedra que atingiria minha perna ou meu braço, a segunda que feriria meu rosto, a terceira que quebraria minha costela ou incharia minhas costas, imaginei em um segundo cada pedra que me mataria até a última, que acertaria minha cabeça fortemente e me faria perder a consciência em meio a ossos quebrados, dores na carne e meus próprios gritos sem respostas.
Suavemente senti que não estava dolorida, os homens, um a um foram deixando o local quietos com passos sussurrados pelo peso na consciência. Os mais velhos que gritavam minha morte, ditando meus pecados naquela cama, se foram. Seguidos dos mais jovens que marcam meus braços com suas mãos perturbadoras.
Quanto ao profeta nazareno, ele estava inclinado ensinando como antes. Continuei ali abaixada chorando até que não houve mais ninguém, só o nazareno e eu. Levantei o rosto e ele estava olhando para mim, abaixei o rosto como se sentisse vergonha, não entendia, mas a vergonha agora era maior que a culpa ou o desespero de antes. Ele se levantou e se dirigiu a mim. Passo a passo aumentava meu choro. Então ele me perguntou:
- Moça, onde estão aqueles que estavam te acusando? Ninguém te condenou?
- Ninguém, Senhor. – respondi.
Seu tom de voz veio e me fez sentir bem, porém a súbita impressão que tive quando levantei a cabeça para olhá-lo me criou um último medo, vi sua mão segurando algo. É uma pedra, imaginei por impulso. Então Ele abriu a mão mostrando-a vazia e com um sorriso largo me disse:
- Nem eu te condeno; volta pra casa, e não peque mais.
As palavras de conselho se tornaram ordem. Como se a partir daquele momento eu recebesse uma nova lei em meu coração. Para sempre ficou marcada em minha memória a imagem do homem que escrevia no chão, com seu dedo na terra. No dia em que fui alvo de Seu coração sobre minha miséria. Aquela pessoa me permitiu ver meus filhos e netos nascerem. Eu soube de sua morte e sua incrível volta à vida. Ainda choro ao encontrar amigos que estiveram com ele como eu. Nunca vou saber quais os desenhos que O Messias estava desenhando no chão ensinando a todos ao redor enquanto me salvava, ensinando as pessoas que queriam ouvir Suas palavras, ensinando os homens que me acusavam e ensinando a mim. De fato morri naquele dia num canto no templo, mas renasci nas mãos vazias sem pedras daquele homem, Jesus, o desenhista da minha salvação.
Baseado na passagem de João 8:1-11